UM GOLPE DE MESTRE NA VILA TANQUE

 

                                Ponto do Mercado: grande centro comercial de João Monlevade nas décadas de 1950/1960

O fato ocorreu em 1963 e é verdadeiro. O seu autor nunca tinha feito algo assim. Consultando o bolso,  o dinheiro não dava para a despesa total da noitada e, por isso, desistiu  até do namoro

 

Aí está o o início da  década de 1960. Os atores eram  apenas estes: Nelson (18 anos),  Ilídio (55), Maria das Dores (48), Helena (17) e o garoto Valter , o Valtinho (6), além de Darcy (23) e Vicente (24), que não apareceram na história em relatos. Nelson tinha iniciado namoro acidental com Helena. Ela confundira Nelson com um tio dele e acabaram se vendo num parque de diversões, daqueles em que o elefante era o artista principal.

 

O locutor do parque convidava o povo para  gastar dinheiro, fazer farra,  usando as seguintes palavras integralmente: “Venham todos se divertir. É hora de queimar o dinheiro que sobrou do fim de semana. Deste mundo nada se leva, só o caixão”.

O namoro combinava com a época,  é claro, nada de proximidade dele  com ela, a não ser segurar o braço se houvesse algum risco em passagens de veículos.  Curvas e mais curvas até o fim do bairro, no Hospital Margarida e perto de onde havia um pequeno campo de pouso de avião tipo Teco-Teco, como era chamado.

 Helena provocou o namoro porque confundiu Nelson  com seu tio Darcy, que trabalhava na farmácia da Belgo-Mineira. Era uma dádiva porque naquela época seria mais fácil ganhar na loteria que encontrar uma moça para pelo menos ir ao parque ou ao cinema. A mais fantástica conquista, depois de ter um par,  para os rapazes, era levar uma donzela ao cinema.

Os cines  eram dois na ainda vila: do centro, onde se estacionavam ônibus nos pontos. A praça tinha o nome popular de Ponto do Mercado. Havia ainda a leiteria, farmácia, clube social, cinema e  ponto de “footing.” Geralmente, os rapazes monlevadenses, em excesso,  migravam para Alvinópolis, nos fins de semana, onde havia uma fábrica de tecidos e nelas as mulheres sobravam. Terminado o expediente da fábrica. à tardinha, a praça principal tornava-se um bom ponto de encontros.


COM CINEMA


Depois de três meses de namoro entre Helena e Nelson, veio  a coragem do rapaz de fazer o “convite indecoroso” para a época da palavra cinema.  Nada mais, nada menos que convidar a namorada Helena para saírem seria um ato de suprema ousadia. Nelson já tinha saído do Hotel Santo Elói, onde morava, no bairro do Baú  “calibrado por um copo de martini e suando as mãos de escorrer  pelo braço até ouvir o “sim, mas tenho que ver com meu pai”, palavras da donzela.

 Repetindo para que entendam: levar uma garota de 17 anos ao cinema seria uma espécie de “cantada”, porque daí seria um passo para pegar na mão da moça, ou, quem sabe sobrar um lance de  mesmo rápida beijoca, quase  impossível.  Helena correu à sala em que pai e mãe ouviam música pela Rádio Cultura. Aprovado o pedido, ficou marcado para o sábado seguinte, em Carneirinhos, a vibrante aventura no Cine São Geraldo, em Carneirinhos.

Na semana, Nelson, que trabalhava no Laboratório de Pesquisas da  antiga Belgo-Mineira, resolveu ir, na quarta-feira conferir o nome do filme para o grande dia que o enchia de expectativas. Faroeste de 1956, com John Wayne, preferido do Seu Ilídio, o cartaz indicava: "Rio Grande". Nelson fez as contas dos valores em  cruzeiros (moeda da época) que gastaria na excursão com namorada — passagens de ônibus, entrada no cinema e pipocas — e constatou que  dinheiro seria suficiente.

 

Chega o sábado da alegria. Sapato engraxado, cabelo penteado, Nelson cheirava a perfume falso francês e as roupas passadinhas, caprichadas foram até  encomendadas à lavadeira para caprichar. Pegou o busão da Vila Tanque no cruzamento com Baú e zarpou para a casa da donzela. Recebido pelo “sogro”, esse também arrumadinho, tinha cara de estar preparado para um programa, a cara limpinha como se a lavasse de dez em dez minutos. Nisso, Valtinho, mais um vestido a rigor para a aventura, com sapatos e meias novos, passa correndo e grita: “Oi pai, nós no cinema, hein? Eu quero algodão doce!”.

 A ficha de Nelson despencou-se de vez.  E mais ainda quando o velho comentou: “Poxa, como as mulheres são moles!” Somado o grupo que partiria para atravessar a poeira da Avenida Getúlio Vargas, dava para quebrar de vez o aventureiro. Impaciente por causa da demora de mãe e filha em se arrumarem, Ilídio gritou:

 — Vamos, gente, já é sete e meia, vamos perder o filme!

 

SEM CINEMA

Quando o dono da casa pegou a chave para fechar a porta e sair, Nelson teve a ideia salvadora:

 “Não podemos levar criança, Valtinho não pode ver o filme de hoje.” Maria das Dores  complementou: “Ele vai fazer seis aninhos dia 30”.

 — Nossa Sennhora, o filme que vai passar é impróprio para menores de 18 anos — informou o esperto Nelsinho (ele já era chamado desse apelido carinhoso).

— Então, nem pensar, gritou o chefão da casa, reabrindo a porta da casa. Nunca  assistimos coisas feias no cinema, quanto menos meus filhos!

 E desistiram do programa. Voltaram para a sala de visitas, onde um rádio tocava o programa preferido de Ilídio, com Cascatinha e Inhana. Nelson teve em si uma mistura de alegria com tristeza, tudo ao mesmo tempo. Não foram ao cinema, mas a economia foi brutal. A regra na época era que o namorador arcar com todas as despesas do passeio. Até por que o rapaz fora quem teve a iniciativa da noite.

 Encerrado o assunto, o laminador Ilídio (ele trabalhava num departamento de alta temperatura) prometeu ver no cinema do Ponto do Mercado, quando saísse da usina e marcariam para o novo sábado. Contudo, Nelsinho já pensava consigo mesmo: “Eu, pagar as despesas dessa tropa toda?” E sumiu de vez, correndo léguas do simpático bairro Vila Tanque durante quase um ano.

Até que chegou o Carnaval vem a surpresa. Nelson foi divertir-se no Clube Ideal e lá encontrou Helena, toda fantasiada e perfumada e mais, com um novo namorado Nelsinho, sozinho, numa mesa viu a cena até que o moço Vicente olha as horas e  precisou ir embora. E deixou Helena na mesa com os pais.

Helena sinalizou para o ex-namorado e soprou-lhe ao ouvido: “Vamos dançar?” Nelson, não vacilou. Entortou-se todo na cintura dela e pensou consigo mesmo: “As mulheres estão mudando e vão mudar mais”. Olhou na mão direita da ex e viu uma larga aliança de noivado.

 A mais contundente novidade veio depois.  Helena soprou nos ouvidos de Nelson um incrível segredo de que nem os país sabiam ainda: 

“Estou grávida”.

O herói acabou sendo ele, Nelson da Consolação Batista, por não ter sido um dos atores desta história do golpe que começou na tradicional Vila Tanque. Porque, um mês depois, Vicente era casado na delegacia de polícia, no sigilo, e quase precisou sentir apertando-lhe a barriga uma garrucha calibre 44.

 

Telecoteco Bimba

Imagens: Redes Sociais

Em 07/04/2026


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