HISTÓRIA MACABRA (1): O vivo 'morto’ de susto
Aconteceu em São Sebastião do Rio Preto. Nessa cidade, os mais antigos ainda contam a história, que mexeu seguidamente com gerações. Os mais novos, com certeza, questionarão: “Por que fatos como esse não se repetem?” A resposta é simples: os habitantes do baixo astral saíram da área por evolução do conhecimento. Contudo, o que aconteceu é conversa séria e muito bem testemunhada
O
FATO
Meia-noite, hora em que
Machado de Assis sempre tarimbou como das assombrações e que fazia tremer o
mais sensato dos seres humanos, nesse horário era comum levantar uma suspeita
sobre fantasmas. Já surgiram os céticos, mas a frequência de fatos e a
narrativa de pessoas sérias, ocupavam os bate-papos nos balcões das vendas,
onde, normalmente as pessoas se assentavam como se fossem mercadorias, com
cavalos amarrados no toco mais próximo.
Nas vendas, ou botecos,
ainda não falavam em bar, palavra chique. Sempre corriqueiro o conto de uma
façanha que, acreditem, a maioria nunca duvidava. Teve a assombração do Manoel
Bispo, do Zé Alves e, em todos os lugares, porteiras batendo, engenho
funcionando, moinhos rodando sem operação, animais assustando-se, o grito à
distância, palavras enroladas, tudo, enfim, que era fora do momento e da
realidade.
A
ARRANCADA
No boteco do Teia a
moçada bebia. E como bebia! Às vezes um rato passava entre as garrafas nas
prateleiras, mas ninguém ligava, quanto menos José Vieira Reis, o Teia, figura
queridíssima e engraçadíssima também e que distraía a sua clientela com
anedotas as mais diferentes e interessantes.
No meio das piadas
alguém, já bem “chapado”, ofereceu-se para desafiar o cemitério, assunto daquele
momento. A proposta seria gritar na porta do “campo santo”, ou fazer alguma
estrepolia desafiante e pregar um prego no portão do mausoléu.
“Fulano de Tal Corajoso”
resolveu topar a parada em troca de um litro de “graspa”, bebida tipo licor,
fabricada em Itabira, muito gostosa, mas se ingerida sem moderação pode
complicar a vida do beberrão. Fulano Corajoso propôs: “Tenho que beber umas
pingas antes de ir, mas preciso de uma
capa e de ganhar 50 cruzeiros em dinheiro”. A capa lhe foi arrumada, a grana
ficou em garantia com o Teia, um martelo e um prego tamanho 20 por 30, novo,
tirado na caixa. Veio também um boné roxo e até um guarda-chuva, esse o Fulano
de Tal rejeitou.
O
CAMINHO
E lá vai ele subindo a
Rua do Bonfim, arrastando-se como um
bicudo conhecido e, aparentemente, sem medo. De longe, acompanhavam-no seus
“amigos” que se propunham testemunhar o fato. O “corajoso” passou pelas casas
de Nozinho do Jacinto, José Bonifácio, Salinda, Olímpio Melo, Roque Zé Mingo,
Lulu Garcia e pegou o rumo do Nego da Olinda. E chegou à porta do cemitério,
até então cheio de matagal.
No alto, o desafiante
parou, pensou um pouco, acendeu um cigarro e gritou: “Eu quero outro litro de
acréscimo e os CR$ 50,00 adiantados”. Veio a autorização mais uma vez e o cara
da coragem partiu celeremente para a seu destino soturno.
Na porta, aprontou-se
todo como fosse tirar retrato (ninguém tinha máquina fotográfica, enquanto a
chuva acelerava suas torneiras, caindo agora os chamados “canivetes abertos”,
torrencialmente. Apesar de “chumbado”, o cara da coragem, mesmo tremendo como vara
verde, avançou. Preparou para fazer o seguinte: martelar o prego 20 por 30 no
portão do “campo santo” como fora o combinado. Pegou o prego, mas esse escapou
de sua mão, caindo numa poça de água. No entanto, preventivamente, tinha outro.
A "MORTE"
Embaralhou-se tudo: a capa marca “ideal”, o martelo, o prego, escuridão, e tudo em ordem, chega o momento de dar as batidas mesmo no escuro, de vez em quando alumiado por relâmpagos de alta tensão e um pouco assustado por trovões, que pareciam atômicos. Pronto, uma, duas, três batidas de martelo. E...
Jaz.... Nosso “herói” sofre
uma terrível puxada, cai tombado para um lado, fica dependurado e desmaia
dentro da mansão dos mortos. Havia pregado a capa no portão onde estão várias pomposas catacumbas. Nem grita socorro,
parece ter partido para o além. Os ambulantes vêm depois, quando ele já tinha
sido tombado pelo vento para dentro do espaço fúnebre, no meio das covas mais
recentes.
Daí para a frente continua
até roncando, é rebocado e transportado num burro manso, levado para a chegada
e colocado, ao som de risos estrondosos, na mesa de sinuca do Teia.
Conferem-lhe o pulso várias vezes, está vivo da silva, respira forte e exala
até nas narinas um bafo terrível que espanta os ratos desfilantes nas prateleiras
e atrai os tradicionais conterrâneos gambás.
É retirado, estampado e esticado
num banco e atiram-lhe um balde de água fria
no rosto, como nos filmes faroeste. Então,
acorda, levanta-se do banco, sacode o rosto e solta um palavrão:
Fotos: Geraldo Quintão
22/04/2926
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